Agência CEBDS
27/03/2019 13:26

ESFORÇO DE DESPOLUIÇÃO PODE SUMIR EM MEIO AO SANEAMENTO PRECÁRIO E O LIXO DA BAÍA DE GUANABARA


No Dia Mundial da Água, um dos principais cartões postais cariocas, a Baía de Guanabara, foi colocada no centro da roda de conversa “Águas Cariocas”, promovida pelo Museu do Amanhã. Cantada em verso e prosa, a paisagem é visual constante na vida de moradores dos 15 municípios fluminenses que fazem parte da bacia da Baía de Guanabara. Para além da importância paisagística, é também uma das principais fontes de receita para o Estado do Rio, seja pelo turismo, ou pela movimentação de embarcações que acontece por suas águas.


                Entretanto, o potencial da Baía é prejudicado pelo descaso com a poluição. Os prejuízos econômicos para o Estado do Rio giram em de R$ 50 bilhões ao ano, segundo conta, da ONG Viva Baía. O valor inclui perdas no setor de turismo, gastos com doenças causadas pela exposição às águas sujas e pela falta de saneamento adequado, falta de mobilidade urbana - da produção e dos trabalhadores -, excesso de queima de combustíveis com o transporte rodoviário e doenças relacionadas à poluição do ar.


                A falta de saneamento adequado e o descarte irregular de resíduos sólidos são a principal causa de poluição da Baía de Guanabara. Dados levantados pela engenheira Eloísa Torres, publicada em matéria Agência Pública, apontam que 76% do esgoto do Estado do Rio de Janeiro é despejado in natura. São cerca de 18 mil litros de esgoto não tratado por segundo.


                São 34 os rios e canais que desaguam na Baía de Guanabara. Um deles, o Rio Carioca, que nomeia todos aqueles nascidos na cidade do Rio de Janeiro, renasce a partir de 2014, fruto da mobilização da sociedade civil. O rio, que nasce na Floresta da Tijuca e  percorre os bairros de Cosme VelhoLaranjeirasCatete e Flamengo e desagua na Baía de Guanabara, na altura da Praia do Flamengo, foi uma das causas defendidas pela planetapontocom, conforme conta a diretora da organização, Silvana Gontijo, uma das convidadas da roda de conversa.


                O projeto “Carioca, o rio do Rio”, nasceu de uma busca pelo resgate da atenção dos alunos para a aventura do conhecimento. Assim, surgiu o conceito de educação com e através de causas. “A preservação, recuperação e uso consciente de nossos recursos hídricos foi um dos temas escolhidos pelos alunos. Mas, como dar concretude a essa questão? Toda criança sabe hoje que precisa fechar a torneira enquanto escova os dentes - o que significa usar a água de forma consciente. Mas como fazer alguma coisa para recuperar e preservar nossos mananciais?”, aponta Silvana.


A partir desse questionamento e tendo em vista o aniversário de 450 anos da cidade, o projeto identificou a oportunidade de revitalizar o rio de fundação da cidade. Rio esse que, por alguns séculos, foi a principal fonte de água potável de seus moradores e de abastecimento dos navios que aqui aportavam, e que teve grande impacto na forma como a cidade se organiza hoje: o Carioca. 


                A organização planetapontocom mapeou o percurso do rio e, mobilizou diversas escolas identificadas na bacia do rio Carioca. Através de pesquisa, os estudantes descobriram histórias interessantes sobre o rio, como, por exemplo, versões etimológicas para a palavra carioca e a relação entre o rio e a maior obra de engenharia da América Latina no século XVIII, o aqueduto da Lapa, usado para levar as águas do rio até o largo junto ao Mosteiro Santo Antônio.


                O rio, que desde 1905, corre subterraneamente na maior parte do seu percurso, estava abandonado e sendo usado como lixo e esgoto pelos moradores. Através da organização dos estudantes, especialistas e técnicos, uma série de ações de revitalização foram promovidas. Foram identificados e sanados despejos irregulares, captação clandestina de água, responsável pela diminuição da vazão do rio, e restauração de importantes marcos históricos como o reservatório Mãe D’Água, construído no século XVIII. A ação contou com engajamento e suporte de divulgação da Approach, associada do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).


“O valor para limpar o rio e captar todo esgoto era o equivalente a um ano de custeio da estação de tratamento. Não adianta agir somente no desague. O que resolve é limpar de cima para baixo. Hoje, o Rio está limpo até o Largo do Boticário e, até 2021, esperamos estar com o Rio Carioca todo limpo. Se todos os mananciais do Rio fossem recuperados, não precisaríamos depender do abastecimento do Guandu”, destaca Silvana.


O consultor da exposição interativa “Baías de Todos Nós”, Marcio Santa Rosa, destacou a importância de desenvolver o senso de pertencimento para garantir o engajamento da sociedade e reforçou que é necessário realizar investimentos significativos na melhoria do saneamento que, consequentemente, influenciam na despoluição da Baía de Guanabara.


“Fizemos um trabalho junto a escolas no Rio Alcântara, que passa por Niterói e São Gonçalo, monitorando a quantidade de esgoto na água. Isso faz com que os alunos entendam a importância do saneamento adequado. Nesse ponto, é importante pensarmos em iniciativas, como parcerias público-privadas, para melhorar o índice de tratamento de esgoto”, explica.


Segundo estimativas da Confederação Nacional da indústria (CNI), para cumprir a meta de universalizar o saneamento até 2033 é necessário investir anualmente R$ 21,6 bilhões. Com o atual investimento de R$ 13,6 bilhões, a meta será atingida apenas em 2050. Os investimentos privados em saneamento representam o equivalente a 2,2 vezes a média nacional. Enquanto o governo investe R$ 188,17 reais por pessoa, o setor privado realiza investimentos de R$ 418,16 por habitante. A participação do setor privado nos serviços de água e esgoto tem contribuído para acelerar cobertura básica à população.


Moderador do debate e coordenador de conteúdo do Museu do Amanhã, o jornalista Emanuel Alencar também destacou o impacto do despejo irregular de resíduos sólidos. “A estimativa é que, na Região Metropolitana, 90 toneladas de lixo são jogadas em rios que desaguam na baía. É necessário que indivíduo, poder público e privado se engajem na recuperação da Baía de Guanabara”.

Copyright © 2019 - Todos os direitos reservados para o Grupo Estado.

As notícias e cotações deste site possuem delay de 15 minutos.
Termos de uso
Inscreva-se!
Receba no seu email newsletters e informações sobre nossos produtos