Economia & Mercados
04/10/2022 12:14

Especial: De olho em concessões, gestoras ampliam leque de fundos para financiar infraestrutura


Por Cynthia Decloedt

São Paulo, 03/10/2022 - As pessoas físicas se transformaram em um parceiro relevante do financiamento dos projetos ao longo dos últimos 12 anos, quando foram criadas as debêntures de infraestrutura. O papel, que dá isenção de Imposto de Renda a esse tipo de investidor, gradualmente se popularizou e se tornou parte dos recursos necessários para muitos projetos em áreas consideradas prioritárias pelo governo.

A queda na taxa de juro e a proliferação de gestores e plataformas de investimento, assim como o recuo de bancos públicos nos financiamentos, ajudaram a compor um estoque de R$ 188 bilhões desses papéis de 2012 a junho deste ano. As gestoras, plataformas e bancos de investimento apostam não somente na venda individual desses papéis, mas dentro de fundos de infraestrutura, que têm aumentado em número e volume.

Além dos fundos de participação, ou seja, aqueles que entram como acionistas dos projetos e, muitas vezes, participam dos leilões, aumentou a oferta de fundos que compram dívida, por meio das debêntures, por exemplo.

A gestora Pátria, por exemplo, está preparando um fundo de crédito de recebíveis voltado ao setor de infraestrutura que pode alcançar R$ 6 bilhões. A gestora Valora vai testar um fundo de dívida em infraestrutura que começa com R$ 300 milhões em captações, mas tem a pretensão de chegar perto de R$ 3 bilhões.

"As debêntures de infraestrutura dobram a força do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDEs)", comenta o gestor de investimentos do Kinea, braço de investimento do Itaú Unibanco, Aymar Almeida.

Este ano, até agosto, houve um volume de R$ 26 bilhões em debêntures de infraestrutura colocadas no mercado. Os desembolsos do BNDES somente para o setor de infraestrutura somaram R$ 26 bilhões em todo o ano de 2021.

A Kinea tem um fundo de infraestrutura que investe em títulos de dívida somando R$ 5 bilhões. A casa prepara também um fundo de investimento em participação que pode alcançar esse mesmo tamanho. Para Aymar, esse novo bolso da poupança privada brasileira tem tido muita relevância no financiamento de um segmento com enorme demanda por crédito reprimida.

De acordo com o Ministério da Infraestrutura, R$ 850 bilhões em investimentos já estão contratados para os próximos 30 anos por uma agenda de concessões, privatizações e projetos público-privados que começou em 2019.

A diretora de operações da Perfin, Carolina Rocha, nota que a indústria de fundos de infraestrutura teve um empurrão ainda de mudanças estruturais no setor, especialmente nos segmentos de energia e saneamento que trouxeram projetos menores. Os fundos têm investidores que aplicam porções menores de recursos do que aqueles que compram diretamente os papéis.

Almeida pontua ainda que o aumento na oferta de fundos de infraestrutura demonstra a evolução do ativo como instrumento para o investimento. "Assim como os fundos imobiliários, os de infraestrutura se tornaram uma opção de diversificação", comentou Rocha.

Tripé

O sócio e responsável pela área de infraestrutura da Vinci, José Guilherme Souza, concorda que as debêntures de infraestrutura supriram ao longo dos últimos anos o vácuo de financiamento provocado pela menor participação dos bancos públicos.

Entretanto, Souza diz que faltam os investidores institucionais na equação de financiamento à infraestrutura, donos dos bolsos mais fundos. "Embora tenhamos tido sucesso em atrair o mercado de capitais com os papéis incentivados, não fomos capazes de atrair os institucionais", diz ele.

Segundo Souza, o mercado vai precisar dos institucionais, porque as pessoas físicas não são as mais aptas a entender desse risco e financiar de forma sustentável esses projetos. "No mundo inteiro as pessoas físicas não são os mais relevantes", cita.

O gestor defende que o Brasil precisa trabalhar para reduzir entraves à atração do institucional estrangeiro, citando, por exemplo, esforços para ingressar o País na OCDE, onde estão países com grande concentração dos institucionais de fora, muitos deles com mandatos limitados por questões climáticas.

"Estamos super otimistas com o que vem pela frente e, independente de quem vença a eleição, o processo de atração de capital privado vai continuar, seja por meio das privatizações, PPPs, ou concessões. É preciso tirar alguns entraves", pontuou.

Contato: cynthia.decloedt@estadao.com
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