Economia & Mercados
29/05/2020 19:02

Especial: crescimento de casos de covid-19 no Brasil faz minério de ferro disparar 24% no mês


Por Matheus Piovesana

São Paulo, 29/05/2020 - O aumento no número de casos da covid-19 no Brasil é um fator de preocupação para a economia brasileira, mas também produz dor de cabeça do outro lado do mundo. Na China, principal parceiro comercial do País, os preços do minério de ferro dispararam 24% nos últimos 30 dias com os negociadores temendo que a situação da pandemia por aqui provoque interrupções na cadeia de fornecimento do material - o que atrapalharia ou, no mínimo, tornaria mais cara a retomada da segunda maior economia do mundo, primeira a entrar e a sair da crise causada pelo novo coronavírus.

O Brasil não é o principal fornecedor de minério à China: esse posto pertence à Austrália, que vende aos chineses 63% do minério que eles consomem. Entretanto, a australiana Rio Tinto compete de perto com a brasileira Vale no mercado mundial. Para se ter uma noção do quanto estão próximas, basta olhar às projeções de ambas para o ano cheio. A Rio Tinto espera produzir de 324 a 334 milhões de toneladas de finos de minério em 2020; a Vale, entre 310 e 330 milhões de toneladas.

O mercado para ambas tem se aquecido à medida em que a China retoma suas atividades no pós-covid, e em maio, a tonelada do minério no porto chinês de Qingdao ficou consistentemente acima dos US$ 90. Nesta sexta, porém, deu um salto de 5%, e chegou a US$ 102 - preço que reflete a preocupação de que a situação do novo coronavírus no Brasil leve à falta do insumo em um momento de alta demanda. "O grande ponto tem sido o Brasil se tornar um epicentro da doença e as operações da Vale serem paralisadas", diz, sob condição de anonimato, o analista de um grande banco de investimento. "A utilização dos altos-fornos das siderúrgicas da China, que durante o lockdown estava em 70%, está em 91%, 92%."

Ao peso da Vale na cadeia mundial de minério de ferro se soma, no curto prazo, um fator sazonal que já havia reduzido, até março, os embarques à China. O primeiro trimestre, que em geral tem produção menor no Brasil por conta das chuvas, foi ainda mais prejudicado pela pluviometria em 2020. O fator, que já havia aparecido nos balanços de Vale, CSN e Usiminas, foi confirmado pela divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta.

A indústria extrativa no País cresceu 4,8% em um ano, mas a alta foi puxada pelo setor de petróleo e gás, que compensou as quedas na mineração. A produção da mineradora no primeiro trimestre já havia dado uma pista do resultado. De janeiro a março, a Vale extraiu 18,2% menos minério em suas minas que no mesmo período de 2019, marcado pela tragédia de Brumadinho (MG), que teve efeitos sobre a produção. Neste ano, segundo a mineradora, a alta concentração de chuvas em março dificultou os trabalhos.

Concorrência forte

Na semana passada, a China criou barreiras alfandegárias adicionais ao minério de ferro australiano, o que despertou, no país da Oceania, temores de que o produto brasileiro seja liberado muito mais rápido nos portos chineses. Adicionalmente, as críticas da Austrália à maneira como Pequim lidou com a covid-19 têm levado ao estremecimento das relações entre os países. Mas, em eventual cenário de problemas na mineração brasileira, os chineses dificilmente teriam para onde correr.

"A China não deve impor novas restrições à Austrália porque não conseguiria comprar minério de outra região", diz Daniel Sasson, analista de commodities do Itaú BBA. "Uma coisa é restringir as importações de proteína animal, mas não acho que os chineses vão barrar o minério australiano. Seria um tiro no próprio pé". Ou seja: problemas no Brasil podem abrir espaço para que o minério australiano ganhe ainda mais espaço no mercado.

Contato: matheus.piovesana@estadao.com
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