Economia & Mercados
24/01/2022 09:03

Concorrentes estrangeiras das petroquímicas brasileiras investem fora do País


Por Wagner Gomes

São Paulo, 21/01/2022 - A ExxonMobil e a Sabic anunciaram no último dia 20 o início bem-sucedido da operação de uma nova petroquímica de escala mundial da Gulf Coast Growth Ventures no Texas, Estados Unidos. Duas grandes concorrentes da Braskem no Brasil e no mundo, ExxonMobil e Sabic investem onde a matéria-prima é muito mais competitiva que a brasileira, segundo analistas. Eles afirmam que ainda que empresas brasileiras estejam sendo beneficiadas pelo bom momento internacional da indústria petroquímica, terão de aumentar os investimentos nos próximos anos para fugir da desindustrialização e do aumento das importações.

"Temos um parque fabril muito forte, mas isso só se manterá com investimentos. Está na hora de o País investir na petroquímica e dar mais velocidade para as mudanças estruturais que o setor precisa. O governo tem que ter uma participação ativa no debate. O problema é que está indo na direção contrária", avalia João Zuneda, sócio-fundador da consultoria MaxiQuim, especializada na indústria química.

A construção da ExxonMobil e da Sabic no Texas começou no terceiro trimestre de 2019. A nova planta petroquímica inclui um steam cracker de etano de 1,8 milhão de toneladas por ano, duas unidades de polietilenos (PE's) com capacidade para produzir até 1,3 milhão de toneladas por ano e uma unidade de monoetilenoglicol com capacidade de 1,1 milhão de toneladas por ano. A unidade produzirá resinas e químicos usados em embalagens, filmes agrícolas, materiais de construção, roupas e gás refrigerante automotivos.

"No Brasil, o último grande investimento no setor químico de maneira geral foi nos anos 2000. Depois disso, tivemos o desenvolvimento de alguns projetos que acabaram não vingando. A Petroquímica Suape, em Pernambuco, em meados da década de 2000, deu certo, assim como o investimento da Basf em acrílicos da primeira para a segunda década em Camaçari, na Bahia. Houve esse ciclo, mas foi só isso", afirma André Passos Cordeiro, diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).

Segundo a Abiquim, no Brasil os investimentos realizados e programados em produtos químicos de uso industrial de 2021 a 2024 chegam a US$ 1,9 bilhão. É um valor bem menor do que o de 2017 a 2020, que alcançou US$ 2,7 bilhões. De 2000 a 2021, os investimentos chegaram a US$ 36,3 bilhões - alguns projetos ainda não entraram em operação.

Incentivos

Cordeiro defende que a redução de impostos seria um bom incentivo aos investimentos no País. Hoje, a carga tributária sobre o setor químico no Brasil é de 43%, contra 20% nos Estados Unidos. Segundo ele, os 43% recolhidos vão ainda aumentar se o Regime Especial da Indústria Química (Reiq) for extinto como quer o governo.

No início deste ano, o presidente Jair Bolsonaro editou nova Medida Provisória revogando imediatamente o benefício. O objetivo seria compensar a desoneração do imposto de renda recolhido por empresas aéreas sobre o leasing de aeronaves em 2022 e 2023. A decisão é grave porque cria profunda insegurança jurídica não só para o setor químico, mas para toda a indústria brasileira, de acordo com Cordeiro.

"Além disso, existe um modelo econômico que permite um processo de desindustrialização já algum tempo no Brasil. Isso não é de hoje. O consumo de químicos cresce no Brasil, mas as importações tomam a maior parte desse crescimento com o alto custo para a fabricação", diz o especialista da Abiquim.

Segundo ele, nos anos 1990 as compras do exterior representavam cerca de 10% do consumo aparente nacional. O porcentual mais que dobrou no início da década de 2000, chegando a 21% e agora já está em 47% (números fechados de 2021).

"O processo é generalizado, com dois grandes setores mais importadores, o de fertilizantes e defensivos, que atendem o agronegócio brasileiro, e o de medicamentos. Há também em resinas químicas e termoplásticas um crescente aumento das importações de PVC, polipropileno e polietileno, que são utilizadas para embalagens, utensílios domésticos e de higiene, por exemplo".

O Brasil importou US$ 6,4 bilhões em produtos químicos no mês de novembro (último dado disponível). O valor é 4,3% superior ao de outubro de 2021 (recorde mensal, até então) e 64,8% maior que o de novembro de 2020. O volume importado, de praticamente 6,2 milhões de toneladas (respectivamente aumentos de 0,7% frente a outubro e de 17,1% na comparação com igual mês de 2020), também é recorde. Segundo a Abiquim, isso confirma a tendência de estabilização das compras externas em um novo patamar de produtos que poderiam ser fabricados no País, caso as condições de competitividade fossem mais favoráveis.

Contato: wagner.gomes@estadao.com
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