Economia & Mercados
29/09/2020 14:55

Bancos e fundos compraram mais títulos do Tesouro, mas 'pedem' juro extra em leilões


Por Ernani Fagundes

São Paulo, 28/09/2020 - As instituições financeiras (bancos e seguradoras) e os fundos de investimentos sustentaram o financiamento ao Tesouro em agosto, alocando mais títulos públicos federais em suas carteiras, conforme relatório mensal da dívida pública da Secretária do Tesouro Nacional (STN). Ao mesmo tempo, desde o término da última reunião do Comitê de Política Econômica (Copom) em 16 de setembro que manteve a taxa básica de juros (Selic) em 2% ao ano, os agentes do mercado estão "pedindo" mais juros nos leilões do Tesouro, que tem recusado pagar taxas mais altas para rolar a dívida.

De acordo com os dados da STN, em agosto, a participação porcentual dos bancos no estoque de títulos cresceu de 26,46% para 26,69%, o que representa uma expansão líquida de R$ 24,5 bilhões para um total de R$ 1,114 trilhão, enquanto as seguradoras aumentaram sua participação de 3,90% para 3,95%, um aumento líquido de R$ 4,33 bilhões, para um total de R$ 164,82 bilhões.

Já a fatia dos fundos de investimentos avançou de 26,38% para 26,91% na dívida pública, ou um acréscimo líquido de R$ 36,9 bilhões para um total de R$ 1,123 trilhão, compensando parte do resgate líquido de R$ 23,88 bilhões do segmento Previdência, que reduziu sua exposição de 24,85% para R$ 23,94% no total da dívida. Mas por outro ângulo, investidores pessoas físicas estão descontentes com os juros baixos. No Tesouro Direto, a STN também registrou um resgate líquido de R$ 1,14 bilhão de investidores pessoas físicas em agosto.

Na visão de economistas e de especialistas em renda fixa consultados pelo Broadcast, todo o mercado já conhecia o tamanho na necessidade do Tesouro de emitir mais títulos, mas consideram que o "risco fiscal" aumentou. "Teve um aumento do risco, e isso se deu por causa da questão fiscal", resume Simone Albertoni, especialista em renda fixa da Ágora Investimentos. "Quando se aumenta o risco, o valor unitário (PU) dos papéis do Tesouro no mercado secundário recua, sinal de que o mercado está exigindo um pouco mais de prêmio para ficar com os papéis", completa Albertoni, para explicar a volatilidade nos preços dos títulos públicos federais nas últimas duas semanas.

Na avaliação do economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo, para não pagar taxas mais altas nos últimos leilões, o Tesouro tem encurtado a dívida, emitindo papéis com prazos mais curtos. "O juro básico está no lugar errado. O BC está criando um problema para o Tesouro. Vão ser leilões mais complicados (daqui para frente). Sem as reformas, o mercado vai pedir mais prêmio, e daí, teremos o risco do Tesouro se financiar no overnight", diz. No leilão do último dia 24 de setembro, o Tesouro reduziu significativamente a oferta de LFTs, provavelmente evitando a briga por taxas no mercado secundário.

Rachel de Sá, analista de macroeconomia da XP, também avalia que o mercado vai pedir mais juros ao Tesouro nos leilões. "Não é surpresa para ninguém que o Tesouro precisa de financiar, a dívida bruta continua crescendo. O que mudou? Foi um pânico? É só olhar para a Conta Única do Tesouro e verificar que esse colchão de liquidez diminuiu mais rápido, mas todo mundo sabe que o déficit vai bater em 13% do PIB (produto interno bruto) neste ano", comenta.

Mas Rachel chama a atenção para um detalhe interessante. "O Tesouro não pagou tão pouco de juros, vai ficar abaixo de 5% do PIB. Se o governo não cuidar do fiscal, essa oportunidade de se pagar tão pouco vai acabar", diz. Ela tem razão. De julho para agosto, o custo médio em LFTs (Tesouro Selic) caiu de 4,23% em julho para 3,88% em agosto. Nas LTNs (Tesouro Prefixado) diminuiu de 8,68% em julho para 8,41% em agosto, ao passo que nas NTN-Bs (Tesouro IPCA), o custo médio subiu de 7,99% para 8,10% no mesmo período. Na dívida interna, como um todo, o custo médio dos últimos 12 meses desceu de 7,40% ao ano em julho para 7,29% ao ano em agosto.

Percepção no varejo

Na opinião de Camilla Dolle, especialista em renda fixa da XP Investimentos, o "pânico" tem como causa principal os leilões do Tesouro. "Foi uma surpresa esse efeito nas LFTs. Essa volatilidade no Tesouro Selic causa um certo temor no investidor pessoa física, mas não acredito que possa influenciar tanto na captação", diz. "Nos últimos dias passou a ocorrer um efeito de marcação a mercado que levou alguns investidores a perceberem oscilação nos títulos. Mas o efeito é muito pequeno, cerca de 0,2%, por isso não há motivos para pânico", completa.

Questionada sobre o resgate de R$ 1,14 bilhão no Tesouro Direto em agosto, Dolle responde que é uma movimentação comum após meses anteriores de captação líquida. "Se não fosse o vencimento de títulos de inflação, teríamos captação líquida no Tesouro Direto", avalia.

Pelos dados da STN, houve vencimento de Tesouro IPCA com Juros Semestrais (R$ 1,246 bilhão de saída líquida) e resgate de R$ 289,39 milhões em Tesouro Selic, ao passo que foram registrados aportes líquido em: Tesouro Prefixado (R$ 289,39 milhões), Prefixado com Juros Semestrais (R$ 82,77 milhões) e Tesouro IPCA (R$ 122,09 milhões).

Dados do boletim diário da Anbima mostram que depois um rápido movimento de resgates até o último dia 21 (R$ 3,2 bilhões), os fundos de investimentos de renda fixa duração baixa e risco soberano voltaram a captar no dia 23 de setembro (R$ 1,31 bilhão), sinal de que a percepção de cota negativa foi passageira.

Em números gerais, a categoria renda fixa segue com captação forte em setembro. "Dá até para aproveitar esse momento (de precificação menor dos títulos). E ainda tem muita gente buscando segurança e liquidez, procurando oportunidades em crédito soberano e em crédito privado", conclui Simone Albertoni, da Ágora.

Contato: ernani.fagundes@estadao.com
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