Economia & Mercados
16/09/2020 19:55

Após nove cortes, BC mantém Selic em 2,00% ao ano e juro real está em -0,81%


Por Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues; colaborou Aline Bronzati

Brasília, 16/09/2020 - Após nove cortes consecutivos, o Banco Central decidiu na noite de hoje manter a Selic (a taxa básica de juros) em 2,00% ao ano. Em meio aos esforços do governo para recuperar a economia após o choque trazido pela pandemia do novo coronavírus, o BC paralisou o processo de baixa de juros, iniciado em julho de 2019, para evitar eventuais efeitos negativos sobre o mercado financeiro. Para os próximos meses, apesar da pressão recente do arroz sobre a inflação, a autarquia indicou que não pretende elevar a Selic e, ao mesmo tempo, avaliou que o espaço para mais cortes é pequeno.

A decisão de hoje era largamente esperada pelos economistas do mercado. Isso porque, no início de agosto, quando cortou a Selic pela última vez, o BC já havia indicado a intenção de parar em setembro. A visão é de que uma Selic a 2,00% ao ano - o menor nível da série histórica - deixa pouco espaço para novas reduções. Há a preocupação de que uma taxa muito baixa possa afetar o funcionamento dos mercados de câmbio e de fundos de investimento.

De um total de 48 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, todas esperavam pela manutenção da Selic em 2,00% ao ano ontem. Para 43 das 48 casas que enviaram estimativas, o mais provável é que o ciclo de reduções da taxa tenha, de fato, se encerrado em agosto.

Com a Selic a 2,00% ao ano, o Brasil segue com juro real (descontada a inflação) negativo. Cálculos do site MoneYou e da Infinity Asset Management indicam que o juro real brasileiro está em -0,81% ao ano. O País possui o 16º juro real mais alto do mundo, considerando as 40 economias mais relevantes. No topo do ranking está a Turquia, com juro real positivo, de 3,01%.

No comunicado que acompanhou a decisão de hoje, o BC avaliou que a retomada da atividade nas principais economias do mundo tem gerado um ambiente “relativamente mais favorável” para os países emergentes. “Contudo, há bastante incerteza sobre a evolução desse cenário, frente a uma possível redução dos estímulos governamentais e à própria evolução da pandemia da covid-19”, pontuou o BC.

Ao tratar da atividade econômica no Brasil, o BC afirmou que os indicadores recentes sugerem uma “recuperação parcial, similar à que ocorre em outras economias”. A autarquia ponderou que os setores mais afetados pelo distanciamento social “permanecem deprimidos, apesar da recomposição da renda gerada pelos programas de governo”. Além disso, o BC voltou a defender a importância das reformas e do controle fiscal no País.

Inflação

Sem citar especificamente o arroz - produto que vem sendo apontado como o vilão para os preços nas últimas semanas - o BC afirmou que a inflação deve se elevar no curto prazo. Além da alta nos alimentos, contribui para isso, conforme a autarquia, a “normalização parcial do preço de alguns serviços”, passada a fase mais intensa de isolamento social.

Ainda assim, o BC trabalha com uma inflação em níveis controlados. No cenário que utiliza câmbio fixo e projeções do mercado financeiro para os juros, a autarquia alterou sua estimativa para o IPCA - o índice oficial de preços - em 2020 de 1,9% para 2,1%. No caso de 2021, a expectativa passou de 3,0% para 2,9%.

O centro da meta de inflação perseguida pelo BC em 2020 é de 4,00%, sendo que a margem de tolerância é de 1,5 ponto porcentual (índice de 2,50% a 5,50%). No caso de 2021, a meta é de 3,75%, com margem de 1,5 ponto (de 2,25% a 5,25%).

Para o superintendente de Pesquisa Macroeconômica do Santander Brasil, Maurício Oreng, a tendência é a de que a Selic fique estacionada em 2,00% ao ano “por muito tempo”. “Enquanto o regime fiscal e a inflação se mantêm, enquanto tivermos projeções abaixo da meta, o BC não vai subir juros”, disse.

Contatos: fabricio.castro@estadao.com e eduardor.ferreira@estadao.com

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