Economia & Mercados
17/08/2021 09:55

Exclusivo: O plano de Nelson Tanure para se tornar o 'rei da internet' rural


Por Circe Bonatelli

São Paulo, 16/08/2021 - Após investir mais de R$ 2,5 bilhões desde o ano passado na compra de três operadoras de telefonia e internet no Paraná, o empresário Nelson Tanure finalmente decidiu revelar os seus planos neste retorno ao mundo das telecomunicações.

O empresário é um velho conhecido do setor. Ele fez fortuna na venda da Intelig para a TIM, cerca de uma década atrás. Mais recentemente, como acionista da Oi via Pharol (antiga Portugal Telecom), perdeu a queda de braço contra a aprovação do plano de recuperação judicial da tele e saiu de fininho vendendo suas ações por lá.

Agora, uma nova oportunidade de negócio chamou sua atenção. Com a proximidade da chegada do 5G, que promete revolucionar a produtividade dos conglomerados econômicos, Tanure decidiu investir pesado na oferta de conectividade para o agronegócio. O setor responde por cerca de 30% das riquezas nacionais, mas ainda padece com a falta de internet no campo.

“Queremos levar tecnologia de qualidade para o agribusiness”, afirmou Tanure, em entrevista exclusiva para o Broadcast. “Apesar de gigante, essa é uma indústria mal atendida. Dois terços das propriedades agrícolas não têm internet. O dono da fazenda tem celular pessoal, mas a área produtiva não tem cobertura”, observou.

Pensando nisso, Tanure moveu o seu fundo de investimentos multiestratégia Bordeaux para uma série de aquisições de operadoras no Paraná, Estado com uma forte veia agrícola. Na primeira tacada, o fundo arrematou a Sercomtel em um leilão em agosto de 2020 por R$ 130 milhões mais a assunção de uma dívida de R$ 600 milhões. A operadora fornece voz, dados e banda larga para 183 cidades, a maior parte já usando redes da Copel Telecom.

A segunda tacada do fundo foi justamente a Copel Telecom, arrematada em leilão em novembro de 2020. Só que o cheque foi maior, de R$ 2,4 bilhões. A companhia tem 40 mil quilômetros de fibra ótica e cobertura em 399 cidades do Paraná.

A caçula do portfólio é a Horizons Telecom. Ela foi comprada neste ano do empresário curitibano Haroldo Jacobovicz, que deixou o cargo de CEO e permaneceu como membro do conselho. O valor da transação não foi revelado. A empresa tem 3 mil quilômetros de fibra ótica e oferece soluções sob medida para empresas e para o setor público na Grande Curitiba e nas cidades paulistas de Mauá, Osasco, Barueri e São José dos Campos.

Agora, o fundo Bordeaux vai atuar como uma holding, buscando extrair sinergias entre as três operadoras do portfólio para explorar o meio rural. “As três empresas estão em um polo agrícola importante”, afirmou o executivo Márcio Tiago Arruda, presidente da Sercomtel, sediada em Londrina. Antes disso, foi diretor de operações do fundo.

Mesmo com uma capilaridade relevante no Paraná, atender o meio rural é um desafio enorme em qualquer Estado, dado que as propriedades ocupam áreas extensas em zonas pouco adensadas. E o plano de Tanure é, no médio prazo, chegar também ao interior de São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul.

“Nós já temos uma rede grande no Paraná. Daqui para frente, queremos ampliar essa rede e fazer parcerias. Há propriedades distantes, é verdade. Nem sempre vai compensar levar a rede 5G até lá. Aí podemos recorrer à internet por satélite”, explicou Tanure.

O empresário também revelou que o grupo participará do leilão de 5G previsto para ocorrer ainda neste semestre. O objetivo será arrematar um ou mais blocos regionais. Ele não informou, porém, qual faixa de frequência vai disputar para não alardear a concorrência.

Conectividade e serviços

O direcionamento para o agronegócio não vai se resumir à conectividade. O grupo também buscará oferecer serviços de outros setores por meio de parcerias - um modelo que tem sido amplamente explorado pelas grandes teles, como Vivo e TIM, que firmaram sociedades com empresas de finanças, saúde e educação.

Para o Bordeaux, a prioridade é entrar no ramo financeiro, ao lado de uma fintech que possa oferecer, por exemplo, crédito rural e seguro para a produção. “Além de ampliar a cobertura e a qualidade das redes, faz parte do nosso planejamento crescer também em linhas de negócios. Vamos buscar várias parceiras, mas queremos ser referência em serviço para o agro”, completou Arruda.

Nesse esforço para desbravar novas linhas de negócios, a Sercomtel e o Sebrae estão criando uma incubadora de startups. Um dos focos será pensar que tipos de uso o 5G terá no mundo do agronegócio. Esse trabalho, aliás, já começou.

Na última quinta-feira, 12, a Sercomtel e a Nokia fizeram uma apresentação conjunta em Londrina, na Embrapa, aos ministros da Comunicação, Fábio Faria, e da Agricultura, Tereza Cristina. Tanure estava lá também, junto do seu amigo e ex-ministro das Telecomunicações Hélio Costa, presidente do conselho da Sercomtel.

Em uma das demonstrações com 5G, um veterinário usou óculos de realidade virtual para cuidar de um bezerro e partilhar a experiência com profissionais remotos, em Curitiba, tudo em tempo real. Em outra exibição, um drone foi usado para fazer o monitoramento de uma lavoura de soja.

Histórico estressado

Tanure é conhecido no mercado por investimentos em empresas ‘estressadas’, ou seja, que passam por dificuldades financeiras. A ideia é comprar na baixa e vender na alta. Foi assim na Intelig, vendida para a TIM. Outras investidas são a petroleira HRT, rebatizada de Petrorio, e a incorporadora Gafisa - ambas compradas em estado pré-falimentar e reerguidas. Por outro lado, Tanure deixou marcas negativas nos jornais Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil, que acabaram na lona, deixando dívidas trabalhistas até hoje não resolvidas.

Contato: circe.bonatelli@estadao.com
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