Economia & Mercados
20/04/2022 09:19

Especial: Digitalização impulsiona captação de startups nordestinas, mas diferença é grande


Por Elisa Calmon

São Paulo, 19/04/2022 - As captações de startups nordestinas saltaram 386% no ano passado ante 2020, passando de menos de US$ 18 milhões para US$ 87 milhões, segundo a plataforma de inteligência de dados Sling Hub. Com os encontros na Faria Lima substituídos por chamadas de vídeo, a digitalização aproximou empreendedores da região e investidores que se concentram principalmente no Sudeste. Apesar dos avanços, a disparidade geográfica ainda é um desafio, tanto em relação a outras áreas do País quanto dentro da própria região.

Quase 80% das startups brasileiras mapeadas pela Sling Hub estão no Sudeste e no Sul do País, com 58% e 20% de participação, respectivamente. O Nordeste aparece em terceiro lugar no levantamento, abrigando cerca de 7%. A plataforma não tem dados específicos sobre a distribuição entre os Estados, mas especialistas destacam Alagoas, Pernambuco e Ceará como os principais polos nordestinos de inovação.

Na época da fundação da Hand Talk, em 2012, sentar com um investidor era uma missão cara, conta o CEO e cofundador da startup, Ronaldo Tenório. “Eu tinha que pagar R$ 2 mil para ir a São Paulo fazer networking. Agora, com a comunicação remota mais estabelecida, a distância deixou de ser um bicho de sete cabeças”, diz o cofundador da plataforma que traduz simultaneamente conteúdos em português para a língua brasileira de sinais.

A Trakto é mais uma empresa alagoana de tecnologia expoente. Em 2021, a plataforma de design, que compete com o Canvas, realizou a maior rodada de negócios envolvendo startups de Maceió, levantando cerca de R$ 7 milhões. “A pandemia ajudou a nivelar melhor o jogo para as startups nordestinas, mas ainda há um caminho grande para que sejam levadas mais a sério", avalia o CEO e fundador da empresa, Paulo Tenório.

Alagoas abriga o Surury Valley, polo de fomento à ciência, tecnologia e inovação. Além do Vale do Silício, o nome faz referência a um mexilhão típico da região. O Porto Digital, em Recife, é mais um local de referência para esse mercado no Nordeste. Por lá, estão embarcadas 355 empresas de tecnologia que somaram faturamento próximo de R$ 4 bilhões em 2021, aumento anual de 28%.

A BidWeb, empresa de cibersegurança, é uma delas. "Nos últimos 20 anos, desde quando entramos no mercado, tivemos uma evolução gigantesca em oportunidades de negócio. Mesmo não tendo o “QG” em uma cidade central é possível entregar produtos de excelência de igual para igual", diz a CEO da companhia, Flávia Brito.

No entanto, a questão cultural ainda é um desafio, afirma Allan Victor, diretor de marketing da Mittu, fintech cearense. “Nos esforçamos para driblar o conservadorismo. Os clientes ainda ficam céticos sem a chancela de um grande banco e têm dificuldade em confiar em tecnologias”, observa. Atualmente, 13 mil pessoas são remuneradas por meio da plataforma que automatiza o pagamento da folha, movimentando cerca de R$ 170 milhões por ano.

O cenário mais favorável para a inovação em Alagoas, Ceará e Pernambuco é apoiado pela parceria público-privada, segundo especialistas e empresários. Enquanto isso, a maior participação de investidores pode ajudar a alavancar o ecossistema em outros estados nordestinos, segundo o membro do conselho da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs) e advogado especialista em tecnologia, João Amaral.

“É essencial o interesse dos investidores em sair um pouco da batalha sangrenta do eixo Sul-Sudeste e buscar oportunidades em outros estados”, defende Amaral. “Qualquer um que pretere uma empresa por ela ser nordestina está completamente desconectado da realidade global e da agenda de diversidade”, acrescenta. Para ele, a descentralização do mercado de inovação é um processo natural com a queda das barreiras geográficas.

Faca de dois gumes

A cultura de inovação menos amadurecida não impede o desenvolvimento de startups em outros estados nordestinos. A Bahia, por exemplo, é berço da Sanar, plataforma de educação médica assinada por cerca de um terço dos alunos brasileiros de medicina, estima a empresa. "Estar fora da bolha foi um desafio no início, mas acabou se mostrando uma vantagem, porque não entramos no mercado com uma visão viciada”, afirma o CEO e fundador da Sanar, Ubiraci Mercês. “Esse diferencial de estar longe do eixo permitiu ainda que fôssemos berço de talentos locais”, complementa.

Em relação ao recrutamento, a digitalização é uma faca de dois gumes para os empreendedores nordestinos. Por um lado, permite a contratação de funcionários de qualquer lugar do mundo pelas startups da região. Por outro, aumenta o custo para reter talentos locais.

“O Nordeste ainda tem uma média salarial um pouco menor, mas agora a competição é global. Ainda assim, acho que é uma vantagem porque o custo de vida aqui é mais baixo e a qualidade de vida melhor”, comenta Paulo Fontes CEO da Konsi, startup também baiana que opera no mercado de crédito consignado e acabou de chegar a São Paulo. Depois de saltar de 500 usuários para 7 mil em dois meses, a meta é desembarcar em mais sete estados até o fim de 2022.

Lucas Cruz, fundador e CEO da Cruze, que atua no mercado de energia solar, relata um cenário mais difícil no Piauí, estado sede da empresa. Para ele, encontrar mão de obra capacitada é o principal desafio de empreender por lá, enquanto o cenário de inovação ainda é limitado. “Eu me sinto um peixe fora d’água aqui no Piauí. Não temos muitas startups, mas com certeza a digitalização tem nos ajudado a driblar o regionalismo”, afirma.

Contato: elisa.ferreira@estadao.com
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