Economia & Mercados
09/02/2018 19:00

Bancos tentam conter temor sobre mudança no parcelado sem juros


São Paulo, 09/02/2018 - Diante da preocupação do setor de varejo com o impacto nas vendas por conta de mudanças no parcelado sem juros, os grandes bancos, principais emissores de cartões do País, tentam conter a instauração de uma polêmica ao redor do tema. Em um discurso quase que em uníssono, essas instituições estão debruçadas em mostrar que a proposta de criar uma nova forma de crediário não tem como objetivo colocar um ponto final nesta forma de financiamento, mas eliminar subsídios cruzados existentes, permitindo a redução do custo ao consumidor final.

As mudanças no parcelado sem juros, de acordo com uma fonte próxima às conversas, não são para agora. O setor trabalha com a perspectiva de vigência apenas para 2019. Mas, para isso, a estrutura deve começar a ser adaptada imediatamente, defendem os executivos do setor. A sugestão do mercado de cartões de propor um novo crediário para substituir parte das transações feitas na modalidade do parcelado sem juros surgiu a partir de uma demanda do Banco Central para reduzir o prazo de pagamento ao lojista. Sem solução para o problema, os bancos sugeriram criar uma nova forma de financiar as compras, gerando uma margem para que consigam pagar os lojistas em menos tempo. Ao invés de 30, no máximo, em cinco dias.

"A intenção é disponibilizar mais um produto que poderá resolver vários problemas desde a redução de prazo de pagamento ao lojista até a remuneração do capital de quem dá crédito, que é o emissor de cartão e não é o lojista. Se o consumidor não paga, quem fica com o risco é o banco", explica uma fonte, na condição de anonimato.

Desde que a proposta de um novo crediário para substituir parte do parcelado sem juros veio à tona, conforme revelou a Coluna do Broadcast, no mês passado, o setor de varejo reclamou, com medo de impacto nas vendas justamente em um momento que o segmento se recupera da recessão na economia brasileira.

A preocupação não é à toa. A modalidade que substituiu o cheque pré-datado é uma parcela importante das vendas no Brasil. O parcelado sem juros pode alcançar volume de operações entre R$ 350 bilhões e R$ 370 bilhões neste ano, conforme as contas de um analista, o equivalente a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Pesquisa da Tendências feita com lojistas mostra que 93% deles concordam que os cartões agregam mais valor à venda, ou seja, existe uma percepção de que o uso de meios eletrônicos incrementa os negócios e a rentabilidade dos estabelecimentos.

"E para a (Ministério) Fazenda, o problema é o impacto econômico. Se produzir efeitos negativos no consumo é mais um ano de crise", avalia um analista do setor bancário. Como as discussões ainda são preliminares, a economista da Tendências Consultoria Integrada, Isabela Tavares, não vê impacto no curto prazo. Isso porque melhora do emprego, da renda e a queda dos juros devem seguir contribuindo para a retomada do consumo, que deve puxar a expansão do PIB este ano.

Varejo
A mera existência do parcelado sem juros escancara uma particularidade brasileira do mercado de crédito ao consumo. Historicamente, coube ao varejo dar prazo ao consumidor por meio de instrumentos como carnês, cheques pré-datados e, mais recentemente, o parcelamento com cartão. É recorrente que redes varejistas destaquem a investidores o peso em suas finanças do custo da antecipação de recebíveis, instrumento que se torna essencial para diminuir os largos prazos de recebimento. O alargamento dos prazos de pagamento a fornecedores é outra estratégia consolidada no País e que muitas vezes é vista com estranheza por estrangeiros.

"O varejo financia o consumidor com seus parceiros fornecedores. É a indústria, o varejo e o atacado que participam desse crédito", comenta o assessor econômico da Fecomercio-SP, Fábio Pina. Em vez de restringir o parcelado sem juros, a Fecomércio defende que o novo crediário seja apenas uma nova alternativa. "Quem tem que decidir o modelo é o varejo: se o lojista prefere receber depois para garantir uma maior venda sem juros ou se prefere cobrar juros e receber antes, o mercado é quem define", acrescenta. Pina considera que a ferramenta que vem sendo proposta pelos bancos poderia ser de difícil compreensão para consumidores.

O Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) participa das negociações com o BC. "O Banco Central demonstrou interesse justamente de dinamizar a economia e nós achamos que transferir todo o volume para o parcelado com juros é um risco", afirma o conselheiro do IDV, Jorge Gonçalves.

O setor de cartões garante, contudo, que a preocupação de não impactar as vendas é presente nas discussões sobre a mudança do financiamento. O presidente da Cielo, Eduardo Gouveia, reforça que o objetivo em criar uma opção ao parcelado sem juros não é acabar com o produto, mas oferecer alternativas ao varejo que não prejudiquem as vendas. "Não tem essa história de fim do parcelado sem juros. O regulador - o Banco Central - está preocupado em como construir um produto que permita um prazo maior ao consumidor, mas menor para o lojista", explica o executivo, em entrevista ao Broadcast.

Lento e gradual
O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, foi perguntado recentemente por investidores em evento do Credit Suisse sobre o fim do parcelado sem juros, mas evitou comentar diretamente o assunto. Ele ressaltou que o mercado de cartões de crédito vem crescendo mês a mês e o BC quer estimular o uso de meios eletrônicos de pagamento, inclusive para reduzir a quantidade de papel moeda em circulação. O BC, disse ele, tem como objetivo repensar todo o sistema financeiro para conseguir aumentar a eficiência e reduzir o custo de crédito, mas o processo será gradual. "Nada pode ser feito do dia para a noite", afirmou ele, na ocasião.

No exterior, o cartão é um instrumento de financiamento e chega a responder por entre 50% e 55% das compras, podendo alcançar 80%, de acordo com estimativas de um especialista. Como é acrescido de juros, esse parcelamento gera uma receita para os bancos pagarem os lojistas em menor prazo. No Brasil, contudo, a penetração do financiamento com juros é de menos de 15%, reduzindo a gordura dos bancos para o pagamento mais rápido ao varejo.

Assim, o cartão acabou se estabelecendo no Brasil como um substituto ao cheque e não um instrumento de financiamento. Isso foi necessário, conforme especialistas do setor, para o plástico ter a representatividade que tem hoje. Agora, porém, o setor de cartões está disposto a mudar sua estrutura de receitas para agregar um novo produto e acabar com as assimetrias.

Na prática, de acordo com o presidente do Santander Brasil, Sérgio Rial, o que o varejo carece é de acesso a capital de giro. "O que acontece é que boa parte do modelo hoje de cartões - parcelado ou não - também passa a ser um instrumento de capital de giro do sistema. Não tem nada de errado na questão do parcelado por si só. O que não está claro são os juros embutidos neste parcelado. Tem muito subsídio cruzado", alerta.

Isso porque boa parte das vendas parceladas sem juros são antecipadas aos comerciantes pelos adquirentes como Cielo (do Bradesco e Banco do Brasil) e Rede (do Itaú Unibanco). Essa operação gera uma receita importante para essas credenciadoras de lojistas e, por isso, a mudança no parcelado sem juros tem desagradado os novos entrantes. Nos grandes, porém, a dependência é menor e como já não dominam mais sozinhos o segmento de adquirência, pontua um analista, estão dispostos a abrir mão disso.

Procurada, a Abecs explica, por meio de nota, que o Banco Central tem consultado o setor de cartões no sentido de obter informações para subsidiar futura regulação, com o objetivo de ampliar a eficiência dos meios eletrônicos de pagamento e reduzir o custo do financiamento ao consumo. A entidade destaca, porém, que há "cuidado" de não afetar o equilíbrio do sistema. "A Abecs reitera que a informação de eliminar o parcelado sem juros do cartão de crédito não tem qualquer fundamento e que jamais considerou essa possibilidade junto ao regulador", reforça a entidade. (Aline Bronzati, Altamiro Silva Junior e Dayanne Sousa)
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