Economia & Mercados
08/10/2021 15:00

Especial: Mercado elogia leilão de overhedge, mas diz que só oferta nova de dólar alivia preço


Por Silvana Rocha e Antonio Perez

São Paulo, 08/10/2021 - O Banco Central antecipou para 27 de setembro a rolagem do vencimento de cerca de US$ 18 bilhões em operações de overhedge (proteção cambial adicional) de bancos concentrada nos dois últimos meses do ano, mas não impediu o movimento de escalada do dólar. Na visão de operadores e economistas do mercado consultados pelo Broadcast, a estratégia adotada é positiva, mas insuficiente.

Para esses profissionais, além de uma demanda legítima por hedge cambial, também há escassez de vendedor no mercado, dado o cenário interno ruim e a tendência de valorização dos ativos americanos com o início do desmonte pelo Federal Reserve dos estímulos à economia ("tapering"), esperado para breve. Nesse ambiente, analistas defendem uma atuação mais forte do BC, com injeção de liquidez nova, via leilões de swap cambial, de linha com recompra ou venda de moeda à vista, para trazer algum alívio efetivo à taxa de câmbio.

Não é para menos: até agora, quatro leilões de rolagem já foram realizados dentro da estratégia do BC, sempre às segundas e quartas, com venda total de US$ 2,8 bilhões. Mas nada que tenha impedido o dólar de subir de patamar - de pouco acima de R$ 5,30 no fim de setembro para além dos R$ 5,50 nesta semana. A intenção do Banco Central é rolar o montante total a vencer para tentar conter a volatilidade da taxa de cambio e dar previsibilidade às instituições financeiras.

"O mercado demanda leilão com oferta nova de dólar e não apenas antecipação de rolagem de vencimentos cambiais futuros, como vem fazendo corretamente o BC", declarou o economista Alexandre Almeida, da CM Capital Markets. "Vejo que há demanda para proteção (hedge) e apenas uma parte tem perfil especulativo, o que justificaria uma ação mais firme da autoridade monetária", defende Almeida.

Outros argumentos levantados por ele foram a tendência de valorização do dólar no exterior, crise energética global e inflação pressionada no mundo, trazidos pela reabertura mais ampla das economias após os piores momentos da pandemia de covid-19, além da cautela fiscal e política interna, em véspera de ano de eleições presidenciais no País.

A decisão do BC de antecipar a rolagem de overhedge do fim de ano é uma boa estratégia, mas não tira a pressão do dia a dia sobre o dólar, por ser uma operação mais de médio prazo, avalia o diretor da corretora Correparti, Jefferson Rugik. "Como o mercado de câmbio é imediatista, em dias de forte tensão do dólar, tanto interna como externa, tenta chamar o BC para o jogo", observa. Rugik diz que os investidores estão aguardando intervenções mais agressivas do BC. "Podem ser via oferta de swap cambial ou até mesmo a mais efetiva em termos de efeito sobre preço, que seria a venda de dólares no mercado à vista", acredita.

O diretor da Correparti disse que, na quarta-feira, depois de subir às máximas, na casa dos R$ 5,53 pela manhã, o dólar perdeu força à tarde e fechou perto da estabilidade, a R$ 5,4861, reagindo, em parte, a comentários nas mesas de câmbio de que o BC poderia começar a ser mais presente e agressivo nas intervenções cambiais.

Sócio e gestor da Galapagos Capital, Sergio Zanini observa que o BC parece ter escolhido não interferir na formação da taxa de câmbio, uma vez que o montante anunciado de oferta de swaps extras (na casa de US$ 18 bilhões) serve apenas para neutralizar o efeito provocado pelo desmonte da posição overhedge dos bancos. Isso fica claro, segundo Zanini, quando se tem em mente que o próprio presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, fez questão de afirmar que a demanda associada ao overhedge era de cerca de US$ 17,4 bilhões.

"Eles anteciparam o overhedge e já não fizeram mais nada. O BC não parece preocupado com o nível do dólar e escolheu deixar a formação da taxa de câmbio à mercê do mercado", afirma Zanini.

Para o gestor da Galapagos, embora o BC sinalize que vai "estar presente" para suprir a demanda de dólares do mercado, a atuação da autoridade monetária no momento tem sido "pequena ou praticamente nula". O BC, observa, "parece não ver" a busca pela moeda americana tanto via derivativos (por fundos e investidores) quanto para remessas ao exterior.

Na avaliação de Zanini, a escalada inflacionária, com alta dos preços dos produtos comercializáveis em meio a um choque de oferta global de energia, parece incomodar mais o mercado que o próprio BC. Ele considera que a autoridade monetária derrubou a taxa básica de juros em demasia e demora a promover o aperto monetário necessário para conter a inflação.

"O BC deveria atuar de maneira mais incisiva no mercado para quebrar essa dinâmica do dólar. Preocupa muito esse nível de câmbio em função da proximidade do ano eleitoral e todos os riscos associados. Se o dólar não cair agora, não cai mais", diz Zanini, ressaltando que o processo contínuo de alta da moeda americana fez o real perder muito da sua credibilidade, o que tem estimulado muitos investidores a "dolarizar" parte relevante de seu patrimônio.

Boa estratégia

O head de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, diz que o BC acerta com a estratégia de suprir a demanda relacionada ao overhedge dos bancos por meio da colocação escalonada de swaps cambiais. Embora o dólar esteja em ascensão, Weigt observa que houve uma diminuição da volatilidade da taxa de câmbio ao longo de agosto e setembro em comparação com os meses anteriores. Ele também chama a atenção para o fato de o real ter deixado de ter o pior desempenho entre seus pares, o que mostra que o aperto monetário e irrigação do mercado com rolagem de swaps cambiais estão surtindo efeito.

"Em junho e julho, o real era a pior moeda e se desvalorizava duas vezes mais que outras divisas emergentes. Houve uma mudança e agora o real oscila junto com as outras moedas", afirma o tesoureiro do Travelex, acrescentando que o dólar segue em alta, a despeito da atuação do BC, por conta da percepção de risco interno, que leva investidores a pedir mais prêmio para carregar ativos domésticos, como títulos do tesouro de longo prazo.

Contato: silvana.rocha@estadao.com e antonio.perez@estadao.com
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