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Tarifaço e ruídos fiscais barram maior apreciação do real

Ao Broadcast, analistas dizem que incertezas externas e internas limitam apetite por moeda brasileira

1 de abril de 2025

Por Antonio Perez

Após uma arrancada no fim de 2024, quando chegou a tocar o nível de R$ 6,30, o dólar à vista já acumula queda de mais de 6% neste primeiro trimestre e opera abaixo de R$ 5,70. Embora grandes bancos e gestoras de recursos já não vejam taxa de câmbio acima de R$ 6,00 em 2025, analistas ouvidos pelo Broadcast afirmam que a barra para a continuidade do movimento recente de apreciação do real se elevou.

Um ambiente externo incerto, com risco de desaceleração mais forte da economia americana em razão da guerra comercial, e o retorno dos ruídos políticos e fiscais domésticos podem limitar o apetite pela moeda brasileira. Do lado técnico, há dúvidas também em torno do fluxo cambial, mesmo com o embarque da safra agrícola, e da continuidade do desmonte de posições compradas em dólar de investidores estrangeiros em derivativos cambiais.

O recuo do dólar no primeiro trimestre esteve ligado, sobretudo, ao exterior. Na largada de sua administração, Donald Trump adotou uma postura menos agressiva do que a esperada em relação às tarifas comerciais. E o mais importante: a tese do excepcionalismo americano, com migração em massa de capitais aos Estados Unidos, foi posta em xeque pelo tropeço das “bigh techs”, após a ascensão da empresa de inteligência artificial chinesa DeepSeek.

“O excepcionalismo americano foi um consenso no fim do ano passado. Mas a percepção dos investidores mudou, levando moedas emergentes e o euro a performarem bem neste início de ano”, afirma o gestor de macro da AZ Quest, Gustavo Menezes, acrescentando que nesse período foram anunciadas também medidas de estímulo na China e o pacote fiscal na Europa, com ampliação de gastos militares. “Todas as fichas, que no fim do ano passado foram para o mesmo pote, passaram a ser espalhadas por mais regiões.”

Não é possível saber se há espaço para a continuidade desse movimento de diversificação de carteiras nos próximos meses. Moedas emergentes, como o real, podem sofrer com aumento de aversão ao risco e busca por segurança, se a guerra comercial se traduzir em perspectiva de desaceleração aguda ou até recessão nos EUA. Um sinal de alerta surgiu na semana passada, quando divisas latino-americanas tropeçaram diante da expectativa pelo anúncio nesta quarta-feira, 2, das tarifas recíprocas de Trump.

“Se a sensação for de que as tarifas não vão não vão trazer uma piora muito forte da atividade, principalmente global, as divisas emergentes e o real podem continuar se apreciado. Mas, por enquanto, a incerteza é muito grande, e vemos uma pausa nesse movimento de queda do dólar por aqui”, afirma o economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima.

Desmonte de posições

O primeiro trimestre foi marcado por um desmonte global de posições em dólar e queda das bolsas em Nova York, com investidores em busca de ativos descontados. Dados da B3 mostram que os não residentes reduziram, do fim do ano para cá, em mais de US$ 30 bilhões a posição comprada em dólar por meio derivativos cambiais (dólar futuro, mini contrato, swap e cupom cambial), que hoje está pouco acima de US$ 40 bilhões.

Esse ponto fez com que o real se apreciasse mesmo com a saída de dólares do País. Dados consolidados do Banco Central até meados de março mostram que o fluxo total em 2025 é negativo em mais de US$ 10 bilhões, com saída líquida de mais de US$ 13 bilhões no segmento financeiro. As entradas do lado comercial ficaram abaixo do volume tradicional para os primeiros meses do ano.

Há dúvidas tanto sobre a continuidade do movimento de desmonte de posições em dólar quanto da melhora do fluxo cambial, o que pode refrear apostas mais contundentes na continuidade do movimento de apreciação do real, apontam analistas.

“A expectativa é que o saldo comercial e o fluxo como um todo comece a se recuperar por conta da exportação da safra. De outro lado, o fluxo financeiro tem sido mais negativo, com o peso de serviços e investimentos como criptomoedas”, afirma Menezes, da AZ Quest, ressaltando que também há dúvidas sobre o nível de internalização de recursos por parte dos exportadores. “Vimos uma diferença grande entre o câmbio contratado e o embarcado nos últimos anos.”

Ruídos políticos e fiscais

O horizonte para a moeda brasileira é turvado também pela volta dos ruídos políticos e fiscais ao longo de março. Pairam dúvidas sobre a neutralidade fiscal da chamada reforma da renda e há certo desconforto com medidas vistas como populistas, como a liberação recente de saldo do FGTS e o novo crédito consignado privado.

Para o economista-chefe do Integral Group, Daniel Miraglia, os ativos brasileiros, como bolsa e real, estavam muito descontados no fim do ano passado e se recuperaram mesmo sem nenhuma melhora dos fundamentos do País.

“O real e a própria bolsa não estão agora tão atraentes. Os investidores devem ficar mais sensíveis ao noticiário político e fiscal”, diz Miraglia, que vê riscos crescentes de o governo dar uma guinada populista se não houver uma recuperação da popularidade de Lula. “Os sinais são de que o governo pode dobrar a aposta no populismo.”

“Já começamos ver um impacto no comportamento do dólar por conta da questão fiscal em alguns pregões. Isso aconteceu com o anúncio de medidas como a liberação do FGTS e com a aprovação do Orçamento de 2025, que traz previsões muito otimistas de arrecadação para garantir as metas de resultado primário”, afirma o economista-chefe da corretora Monte Bravo, Luciano Costa, que vê o dólar retornando ao nível de R$ 6,00 até o fim do ano.

Efeito Selic

Menezes, da AZ Quest, também vê a questão política e fiscal como um ponto de atenção, mas pondera que é muito custoso apostar contra o real, em razão do chamado custo de carregamento. Quem sustenta posições em dólar abre mão dos ganhos das taxas de juros locais.

Ele observa que os últimos sinais do Banco Central, como a mensagem da ata do encontro mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom), são de que o ciclo de aperto monetário continua. A leitura é a de que a taxa Selic, hoje em 14,25%, pode subir pelo menos mais um degrau e ficar ao redor de 15% por um período prolongado.

“Vamos ter de 12 a 18 meses de juro muito contracionista, com um diferencial de juros interno e externo muito relevante, o que traz certa proteção ao real. Mas ainda mantenho uma posição neutra em relação à moeda porque existem muitas incertezas”, afirma Menezes, que, por ora, mantém projeção de dólar em R$ 6,00 no fim do ano.

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