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O 'X' da questão não é o que tarifas significam para cada país, mas, sim, o risco que elas podem representar
3 de abril de 2025
Por Aline Bronzati, correspondente, Antonio Perez, Gabriela Jucá, Thais Porsch, Marcio Rodrigues e Mateus Fagundes, Eduardo Laguna, Francisco Carlos de Assis e Amanda Pupo
Se, por um lado, analistas entendem que ficou barato para o Brasil a tarifa de 10% anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por outro, os investidores estão enxergando um cenário que pode ser bastante negativo para a economia global, após o que foi chamado pelo republicano de “Dia da Libertação”. Não por acaso os índices das bolsas em Nova York chegam a tombar entre 3% e 4%, mas o Ibovespa subia quase 1% um pouco depois da abertura da sessão de negócio desta quinta-feira. Ao mesmo tempo, o dólar perdia força globalmente assim como os contratos futuros de petróleo recuavam fortemente, em torno de 6%.
O ‘X’ da questão nestes movimentos não está no que as tarifas significam individualmente para cada país, mas, sim, no risco que elas podem representar para a economia americana: recessão, acompanhada de aumento de preços. E se a maior potência global sofre, todos pagam a conta de alguma forma, para muito além das tarifas.
“A reação do mercado aponta que a visão é a de que as tarifas colocarão a economia americana em direção à recessão”, avalia o economista-sênior do banco Inter, André Valério.
A chance de recessão é citada também pelo economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, que vê em Trump uma falta de entendimento muito grande sobre os efeitos do tarifaço para os americanos. “Trump não tem noção do tamanho desse risco e o que significa em termos de bem-estar”, afirma.
O CEO da consultoria deVere Group, Nigel Green, considera que Trump está vendendo para a população uma ilusão econômica. “Mas a economia global funciona com a realidade e a realidade é que isso provavelmente causará danos em uma escala que não pode ser evitada”, diz.
Um dos danos é o inevitável repasse ao consumidor final do aumento de custo e, por consequência, do mundo todo, o que embaralha o plano de voo do Federal Reserve e dos principais bancos centrais do mundo.
O caso do Fed é emblemático, uma vez que o banco central americano tem duplo mandato: inflação sob controle e máximo emprego. Se os dirigentes observam o lado inflacionário, teoricamente os juros teriam que se manter mais próximos dos níveis atuais. É a aposta, por exemplo, de casas como o banco ING e a consultoria Capital Economics.
Mas na avaliação do gestor da Warren Investimentos, Frederico Nobre, a desaceleração da economia americana abre a possibilidade de o Fed voltar a cortar juros em prazo mais curto, fator que seria de alívio para o dólar globalmente. “O mercado está precificando três cortes pelo Fed para este ano. Com isso, você tem possivelmente um dólar mais fraco”, afirma Nobre.
Se vier mesmo o alívio monetário nos EUA, com pelo menos mais uma elevação da Selic contratada no Brasil, o diferencial entre os juros internos e externos ficará maior. Em tese, é favorável ao real ante o dólar. Analistas atribuem parte da valorização da moeda brasileira ao custo elevado do carregamento de posições compradas em dólar.
“O diferencial de juro é favorável à moeda, mas o real não vai conseguir ficar alheio a um movimento estrutural de aversão ao risco”, pondera o economista-chefe da corretora Monte Bravo, Luciano Costa.
De Wall Street a Faria Lima, bancos e consultorias receberam com alívio as tarifas recíprocas de 10% que serão impostas pelo governo americano a produtos brasileiros. A leitura, praticamente generalizada, é a de que poderia ser pior, considerando que outras economias – em especial, China, União Europeia e Japão – vão ter de pagar bem mais para colocar seus produtos nos Estados Unidos.
Com esse nível de tarifa, o Brasil integrou o grupo dos países menos afetados pelo tarifaço de Trump republicano. Estão ao seu lado economias como a do Reino Unido, Chile, Austrália, Colômbia, Turquia, Argentina, Peru, dentre outros. As novas alíquotas entram em vigor no sábado, dia 5 de abril.
Assim, é possível que o Brasil até ganhe competitividade e consiga movimentar algumas peças a seu favor no novo xadrez do comércio internacional.
Essa percepção positiva dos analistas não foi abraçada, porém, nem pelo governo nem por parte do setor produtivo. Os posicionamentos divulgados ontem após o anúncio em Washington expressaram preocupação e lamentação. Em nota conjunta do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Brasil julgou que Trump violou os compromissos assumidos pelos Estados Unidos perante a Organização Mundial do Comércio (OMC), a quem o governo brasileiro não descarta recorrer.
Para o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, funcionou a aproximação do vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, ao secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick. “Saiu menos ruim para o Brasil do que se esperava. E acho que aí teve o mérito do governo, principalmente do Alckmin, que teve duas reuniões com o Howard Lutnick. Eles, os americanos, falavam muito sobre taxar o etanol. Então, acho que para o Brasil acabou saindo menos ruim do que podia ser”, diz Barral.
Na mesma linha, o advogado Carlos Lobo, sócio do escritório Arnold & Porter, baseado em Nova York, considera que 10% são um porcentual bastante baixo. “Os Estados Unidos estão propondo um rearranjo do comércio internacional bastante significativo. Eu acho que pode beneficiar o Brasil”, afirma. Mas ele pondera que existem outras tarifas que afetam o Brasil, como as taxas sobre alumínio, aço e autopeças.
Conforme o sócio do Arnold & Porter, o Brasil pode se beneficiar em mercados em que concorre com os EUA, uma vez que os países atingidos vão impor tarifas retaliatórias – como, por exemplo, na agricultura. Outro movimento que pode ser positivo para o País vem da reorganização das cadeias de suprimentos globais, com o Brasil atraindo empresas por ter uma alíquota menor que outras nações – como, por exemplo, a China, taxada em 34%.
“O Brasil vai eventualmente conquistar mercados novos ou ampliar a sua atuação. Isso já aconteceu no passado: o Brasil aumentou a participação em proteína animal, e eu acho que vai acontecer de novo; então pode ser benéfico para o Brasil”, entende o advogado.
De acordo com o economista-chefe do Barclays para Brasil, Roberto Secemski, o Brasil pode se machucar mais pelo impacto de tarifas recíprocas a outros países na economia mundial. “Talvez, o efeito indireto seja maior do que o direto no sentido da desaceleração da economia global, principalmente da China. Isso pode vir a machucar mais o Brasil”, avalia.
Além de defender que o Brasil insista no diálogo com o governo americano, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) informou que uma missão de empresários do setor visitará os Estados Unidos na primeira quinzena de maio, com o objetivo de estreitar laços e buscar soluções de interesse comum. “Claro que nos preocupamos com qualquer medida que dificulte a entrada dos nossos produtos em um mercado tão importante quanto os EUA, o principal para as exportações da indústria brasileira”, afirma o presidente da entidade, Ricardo Alban.
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