Economia & Mercados
13/05/2022 17:53

Entrevista/Raghuram Rajan: O mais provável é ocorrer uma recessão nos EUA no final de 2023


Por Ricardo Leopoldo

São Paulo, 10/05/2022 - A necessidade de o Federal Reserve subir os juros para acima de 3% ao ano a fim de combater a alta inflação nos EUA torna mais provável que o país entre em recessão no final do próximo ano, comentou em entrevista exclusiva ao Broadcast Raghuram Rajan, ex-economista-chefe dobro FMI e atual professor da University of Chicago Booth School of Business.

“Pensar que o Fed pararia de subir as taxas de juros em 3% é talvez um pouco otimista. Quase certamente terá que subir mais, a menos que a economia caia com vigor a partir de agora, mas não vejo isso acontecendo”, apontou. “Eu avalio que as chances de conseguir um pouso suave são menores do que 50%. Em outras palavras, o mais provável é um pouso forçado, mas não quer dizer que seja impossível.”

Para Rajan são preocupantes as propostas de Janet Yellen, Secretaria do Tesouro dos EUA, que advoga o “friend-shoring” e de Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), de adotar a regionalização no lugar da globalização, como defenderam na última reunião do Fundo Monetário Internacional em Washington. Na sua opinião, se tais teses forem colocadas em prática, haverá maior protecionismo dos países ricos e nações em desenvolvimento tenderão a ficar mais pobres, o que inclusive poderá gerar ondas de imigração para economias avançadas.

Acompanhe os principais trechos da entrevista:


Crédito: John Zich

Broadcast: Durante a recente reunião do FMI em Washington, um dos temas mais discutidos foi as teses de Janet Yellen, Secretaria do Tesouro americano, de “friend-shoring”, e de Christine Lagarde, presidente do BCE, de substituir a globalização por regionalização. Qual é a avaliação do senhor sobre estas proposições?

Raghuram Rajan: Acredito que há uma abordagem pragmática e uma idealista. Sou a favor da idealista, mas acredito que a tendência agora é a pragmática. As pessoas nos EUA e nos países na Europa veem o impacto estratégico de ter cadeias internacionais de produção, mas também há um certo protecionismo que está surgindo nessas nações, principalmente por causa de movimentos internos favoráveis a esta posição. O movimento de Donald Trump é em grande parte protecionista e a reação democrata, até certo ponto, a abraça. Acredito que isto também é verdade na Europa.

Existem muitas pessoas que cada vez mais se preocupam com a concorrência comercial dos mercados emergentes. E, claro, a China tem sido um grande problema há muito tempo. Existe uma combinação de preocupações estratégicas, na qual os mercados emergentes são deixados de fora porque eles não são realmente democracias de carteirinha ou não estão compartilhando completamente os mesmos valores. Esta é uma outra forma para dizer “vamos deixar esses países que não são confiáveis e trazer a produção de novo para dentro das nossas fronteiras.”

Broadcast: Qual é a sua opinião sobre a desglobalização?

Rajan:
Eu não gosto desta tendência de desglobalização. Acredito que devemos tentar garantir que possam negociar inimigos diretos ou ao menos amigos que não são perfeitos. É do interesse de todos manter a economia global. A regionalização, na prática, só viabilizaria que países em pequenas áreas geográficas comercializem entre si onde há confiança. Contudo, isso significará que democracias ricas negociem umas com as outras, enquanto vários países mais pobres são deixados de lado. Esta é uma direção muito preocupante.

Se for definido que o comércio deve ser feito apenas com países amigos, quantos deles passarão neste teste? Seria um número muito limitado. Tal tese satisfaz o lobby anticomércio, cujo objetivo é produzir tudo em termos internos. Mas sabemos que isso é terrível, tanto para o país como para o mundo.

É do interesse dos países ricos ver o desenvolvimento das nações mais pobres. Do contrário, eles terão níveis de imigração que nunca viram antes.

Broadcast: Como é possível manter a atual globalização num contexto em que Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia e há temores de que Xi Jinping determine a ocupação militar de Taiwan pela China?

Rajan:
Não digo que as sanções comerciais nunca devem ser usadas, mas sim que devem ter um limite. Idealmente, o consenso poderia ser obtido pela Organização das Nações Unidas reformada, com alguma forma de votação de muitos países para decidirem juntos. Acredito que os vetos neste momento da história do mundo deveriam estar fora da mesa. Após a votação, a ONU poderia apontar que foi autorizada a imposição de sanções contra um determinado país, que depois serão definidas e implementadas por ministros das Finanças. A discussão geopolítica na ONU deve ser a primeira de todas.

Broadcast: Na hipótese de que os países ricos definam que suas exportações e importações apenas ocorrerão com nações confiáveis, qual será o impacto para emergentes?

Rajan:
O comércio regional é certamente possível. Mas o Ocidente não deveria estar feliz com esse ambiente, pois se uma nação não comprar produtos de certos países, esses países provavelmente não vão adquirir mercadorias daquela nação. Se o Ocidente se tornar isolacionista, com o envelhecimento das suas populações, aumentará a dependência da demanda externa, pois a interna cairá com o tempo.

Além disso, há a preocupação da disponibilidade de mão-de-obra pelas companhias em nações ricas, como ocorre no Japão, pois suas fábricas estão sendo instaladas em outros países, como Tailândia e Índia.

O fim da globalização implicará na redução das oportunidades de renda nos mercados emergentes, pois cairão suas exportações, o que reduzirá significativamente a qualidade de vida. O capital é bem móvel, mas o trabalho não é estático. Aumentar a desigualdade no mundo pode ter consequências.

Acredito que a imigração é uma fonte valiosa para o país receptor e para a nação de onde sai o imigrante. Eu mesmo sou um imigrante. Mas a imigração descontrolada, que ocorre devido a catástrofes causadas por condições climáticas e conflitos políticos, traz cobranças em qualquer país. Europa e EUA: cuidado se tentarem se tornar fortalezas, pois os efeitos podem ser diferentes do imaginado.

Broadcast: A globalização do comércio trouxe desinflação em todo o mundo, que por enquanto acabou, o que elevou a inflação em diversos países em 4 ou 5 pontos porcentuais. Esse problema das cadeias internacionais de produção ainda vai continuar por mais tempo?

Rajan:
As cadeias internacionais de produção passam por problemas por causa da situação da China. Mas a grande razão porque essas cadeias de suprimentos ficaram obstruídas foi porque durante a pandemia ocorreu uma mudança no aumento da demanda por bens manufaturados, que foi exacerbada pela pandemia.

Algumas destas pressões inflacionárias diminuirão com a desaceleração econômica que está sendo provocada por vários bancos centrais, como o Fed, e a volta ao normal das cadeias de produção ao longo deste ano para o próximo. Os bancos centrais estão preocupados que, com o aumento dos índices de preços, as pessoas vão exigir maiores salários, o que pode provocar uma espiral inflacionária. Os BCs estão certos em agir contra isso.

Broadcast: Como o senhor avalia o aperto quantitativo adotado pelo Fed, que subiu os juros em 0,50 ponto porcentual no início deste mês e deve adotar a mesma medida nas suas próximas duas reuniões?

Rajan:
Muitas pessoas acreditam que o juro neutro está entre 2,5% e 3,0%. Normalmente, a taxa neutra é cerca de um ponto porcentual acima da inflação. Se você tem uma regra de Taylor em mente, quer restringir a inflação e para isso tem que ir para um nível mais alto de taxas de juros para reduzí-la.

A taxa de juro neutra depende de quão persistente é a inflação e ela será persistente se o mercado de trabalho nos EUA continuar muito apertado. Minha avaliação é de que provavelmente iremos para uma taxa básica de juros superior a 2,5%, 3%. Os 2,5% devem ser atingidos no final deste ano.

Em algum momento, a inflação baixará com a resposta de setores da economia sensíveis à taxa de juros, como o mercado de imóveis, que ainda está em brasa, mas perderá a alta temperatura. A construção será afetada, o que corrigirá os preços de ativos que devem ir para patamares mais razoáveis.

Haverá um pouso da economia no final do próximo ano, vamos ver que tipo será. Muitas pessoas apontam que, com o patamar atual da inflação (o CPI atingiu 8,5% em março), normalmente não ocorre um pouso suave, mas alguma interrupção no crescimento do nível de atividade.

Broadcast: O senhor vê a taxa nominal de juros nos EUA atingindo 4% no próximo ano? Será inevitável o país entrar em recessão ao final de 2023 ou haverá o pouso suave?

Rajan:
Tudo é possível. O Federal Reserve com certeza não quer recessão. Acredito que o Fed continuará muito atento à inflação e ao que está ocorrendo no mercado de trabalho, acompanhando de perto a evolução dos dados econômicos. O único problema é que a política monetária funciona com defasagens longas e variáveis, que vão de 6 a 12 meses. Muitos apontam que em 1994 e 1995 o banco central americano conseguiu desacelerar a demanda o suficiente, sem acabar com a recuperação econômica. Vamos torcer para que seja essa a situação atual.

Por outro lado, pensar que o Fed pararia de subir as taxas de juros em 3% é talvez um pouco otimista. Quase certamente terá que subir mais, a menos que a economia caia com vigor a partir de agora, mas não vejo isso acontecendo. Eu avalio que as chances de conseguir um pouso suave são menores do que 50%. Em outras palavras, o mais provável é um pouso forçado, mas não quer dizer que seja impossível.

Contato:ricardo.leopoldo@estadao.com
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