Política
09/10/2019 17:01

Mamífero dos oceanos mais ameaçado de extinção do Brasil, peixe-boi-marinho corre perigo com óleo no Nordeste


Por Michelle Ferret e Marina Cardoso, especiais para o Broadcast Político

Natal, 9/10/2019 - O espalhamento de óleo no litoral do Nordeste ameaça tartarugas, aves e o peixe-boi-marinho, o mamífero dos oceanos mais ameaçado de extinção do Brasil. Segundo especialistas, o petróleo cru pode afetar a digestão dos animais e o desenvolvimento de algas, essenciais para a cadeia alimentar dessas espécies.

Além disso, alertam, há possíveis riscos para a saúde humana. O vazamento do óleo já atinge 138 localidades, nos nove Estados da região. "Sem dúvida, é o maior desastre ambiental no litoral do Nordeste do Brasil", afirma o coordenador-geral do Projeto Cetáceos da Costa Branca da Universidade Estadual de Rio Grande do Norte (Uern), Flávio Lima.

Lima e equipe estão envolvidos no atendimento de animais contaminados pela substância, cuja origem é atribuída à Venezuela, de acordo com análises feitas pela Petrobras. Nesta quarta-feira, 9, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, declarou que a origem do vazamento seria um "navio estrangeiro".

Até o momento, em todo o Nordeste, 16 tartarugas-marinhas, espécie ameaçada de extinção, sofreram contaminação pelo material. Por isso, em Sergipe, o Projeto Tamar deixou de lançar 800 tartarugas no oceano. "A morte das tartarugas é apenas a parte mais imediata das consequências do vazamento", avalia.

Só dois bichos encontrados estão vivos. Uma tartaruga-marinha que está no Centro de Descontaminação de Fauna Oleada da Uern, em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte, único local no Nordeste que oferece estrutura completa para a recuperação dos animais resgatados com óleo. A outra aguarda estabilização do quadro para ser transferida para a unidade.

O material observado é denso, com odor forte característico e se espalha em borrões pelas praias e areias. O petróleo cru é perigoso e agressivo para a saúde humana e animal por ser composto de uma mistura complexa de componentes orgânicos e 70% de hidrocarbonetos.

Conforme a pesquisadora Liana Mendes, da organização da sociedade civil Oceânica, vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ainda que o óleo tenha um tempo de existência relativamente curto no ambiente aquático, a fração derramada é altamente tóxica para os organismos.

"Como efeito, pode afetar na digestão dos mamíferos, resultando em debilidade na ingestão de nutrientes, o que pode levar à morte", afirma. "Outro desdobramento na cadeia ecossistêmica é que o óleo pode afetar o crescimento e produção de algas e algumas outras espécies que são fundamentais para a vida marítima", complementa.

Tartaruga contaminada

Liana lembra que outra substância perigosa no petróleo cru é o benzeno, associado ao carcinógeno. Essa substância pode ocasionar a diminuição dos glóbulos brancos em humanos. "Com isso, as pessoas ficam susceptíveis a infecções", afirma. Moradores da Praia de Santa Rita, em Exremoz, na região metropolitana de Natal, um dos locais afetados, Rejane Silveira e Zélia Lopes disseram que, no último fim de semana, os filhos, de 10 e 12 anos, voltaram do mar "cheios de piche". "Ficamos muito assustadas e colocamos eles no banho. Tinha 'graxa preta' em todo lugar, no cabelo, nas orelhas e conseguimos retirar com óleo de cozinha", diz Rejane.

Monitoramento de praias

O "bugueiro" Francisco Sales, que faz passeios pelo litoral nas Praias da Redinha, em Natal, e de Santa Rita, também relatou ter visto vários banhistas com óleo no corpo. "Tem dias que aparece mais, outros menos. O que mais entristece é ver as tartarugas com óleo, morrendo. Além disso, prejudica o passeio com os turistas, o movimento ao redor. É a primeira vez que vejo isso acontecer", lamenta.

Para alertar a população, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Estado (Idema) e o Projeto Tamar elaboraram material educativo com os procedimentos que devem ser tomados em caso de contato com o óleo ou conhecimento de um animal que se contaminou.

É preciso evitar o contato com o petróleo e, caso aconteça, pôr gelo no local ou retirar com óleo de cozinha. Caso tenha reação alérgica, procurar urgentemente atendimento médico. O diretor-geral do Idema, Leonlene Aguiar, afirma que todas as cidades estão orientadas para a coleta feita pela limpeza urbana, de forma adequada, com pá, luvas e sem uso de máquinas.
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