Política
27/05/2022 17:33

Entrevista/FGV/Daniela Campello: Inflação deixa espaço pequeno para crescimento de Bolsonaro


Por Cícero Cotrim

São Paulo, 25/05/2022 - Ao contrário do que foi observado ao longo dos anos 2000, quando o "miniboom" de commodities alavancou a popularidade dos presidentes da América Latina, a disparada dos preços de matérias-primas este ano deve fazer pouco pelas chances de reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL). A avaliação é da cientista política Daniela Campello, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pesquisadora residente do Wilson Center, em Washington (DC).

Para a analista - autora de um estudo que relaciona o sucesso eleitoral de presidentes latino-americanos ao desempenho da economia mundial -, o quadro de 2022 apresenta diferenças fundamentais em relação à "bonança" experimentada pelo Brasil na década de 2000, com impactos da dinâmica inflacionária mundial e a quebra da correlação histórica entre aumento dos preços de commodities e valorização do real.

"Existia uma expectativa há mais de um ano por um novo 'boom' de commodities, que não se configurou da maneira como se imaginava", diz Campello, em entrevista ao Broadcast. "Como a conexão entre o real e os preços de commodities está quebrada, o que estamos vendo é um resultado muito diferente para a economia doméstica do que nos anos 2000, que é o aumento da inflação. E inflação, do ponto de vista político, é a pior coisa que existe."


Foto: Divulgação

Esse quadro não é exclusividade do Brasil e apresenta um momento difícil para a popularidade de todos os presidentes da América Latina, onde as decisões do eleitor são fortemente balizadas pela situação econômica. Segundo Campello, a menos que o aumento dos preços de commodities se reflita em uma apreciação da moeda capaz de debelar a inflação nos próximos meses, o mais provável é uma derrota de Bolsonaro nas eleições deste ano.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Broadcast: Os preços de commodities dispararam em 2022, na esteira da guerra entre Rússia e Ucrânia. Quais são os impactos dessa valorização para as chances de reeleição do presidente Jair Bolsonaro?

Daniela Campello: O eleitor mediano não identifica os efeitos internacionais: ele percebe esses movimentos na medida em que se traduzem na economia doméstica, como aconteceu no ciclo de commodities passado, em que houve aceleração do crescimento e redução da inflação. Até agora, essa disparada de commodities não vem se refletindo na economia doméstica, especialmente porque a gente ainda não viu uma apreciação da moeda, que é o mecanismo que traduz o cenário internacional no bem-estar doméstico.

Broadcast: O mercado tem aumentado as projeções para o PIB de 2022, depois de dados mais fortes no primeiro trimestre. A reação da economia aumenta as chances do presidente?

Campello: O eleitor sente o crescimento na medida em que se isso traduza em aumento do emprego. Por exemplo, na época do [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso, o crescimento econômico não foi acompanhado de um bônus de emprego e, portanto, não se traduziu em bônus político.

Broadcast: A inflação alta e as perspectivas de desaceleração econômica a partir do terceiro trimestre limitam o espaço para o crescimento de Bolsonaro?

Campello: Acho que a inflação, no nível em que está, deixa um potencial de crescimento muito pequeno. Quando falamos em eleitorado, temos de diferenciar. A maioria dos eleitores responde às condições de vida. Se estão muito ruins - e, neste momento, estão -, o potencial de crescimento é pequeno.

Broadcast: O mercado espera uma descompressão da inflação no segundo semestre, mas uma taxa ainda em dois dígitos até agosto ou setembro. Isso é suficiente para alavancar as chances do presidente?

Campello: Uma inflação em dois dígitos é muito pesada, já vem acontecendo há bastante tempo e implica em uma perda de poder aquisitivo enorme. A gente tem de lembrar que o Brasil chegou ao menor nível de desigualdade da história no período da pandemia, quando Bolsonaro despejou R$ 70 bilhões por mês na economia com o Auxílio Emergencial. E passou disso para a situação em que o País se encontra hoje. Se a estimativa é de um IPCA de dois dígitos até agosto, duvido de um aumento da popularidade do presidente.

Broadcast: Qual é o peso do voto econômico em uma eleição tão polarizada e com quase 80% das intenções de voto divididas entre os dois líderes das pesquisas?

Campello: Essas intenções já embutem o voto econômico. O petismo ou o lulismo, em geral, circula em torno de 25% de apoio, e o bolsonarismo tem um chão firme de 20%. A intenção de voto superior para o PT não é um voto contra a agenda de Bolsonaro, mas sim um voto que responde às condições negativas da economia sob Bolsonaro. Isso não é só no Brasil. Na América Latina, em geral, o eleitor é muito móvel, responde muito à economia e é pouco fiel a partidos e pessoas. A gente vê o que aconteceu com o PSDB, que desmoronou de uma forma impressionante nos últimos anos.

Broadcast: O ex-presidente Lula aparece como favorito nas últimas pesquisas de opinião, com intenções de voto entre 40% e 44%. Na sua avaliação, qual é o desfecho mais provável das eleições?

Campello: Eu hoje tenho bastante convicção de que a eleição de Lula é o cenário mais provável. O único fator que pode causar uma grande mudança é se a bonança vinda de fora for tamanha que consiga gerar uma mudança muito brusca dos indicadores, o que acho improvável no período de um ano. Mas seria possível ver isso acontecendo em um período mais longo. Recentemente, Lula falou que o Brasil poderia precisar de um presidente sortudo, comentando as falas de quem dizia que o desempenho da economia no governo dele foi sorte. É engraçado, porque eu acho que isso até poderia acontecer.

Broadcast: Há uma chance de a eleição ser resolvida já no primeiro turno?

Campello: Eu acho que existe uma possibilidade, porque pode cair a ficha para os eleitores de que uma eleição no primeiro turno seria mais contundente e daria menos espaço para Bolsonaro tentar qualquer aventura. Se chegar ao segundo turno, a chance de uma aventura é maior.

Contato: cicero.cotrim@estadao.com
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